Mentes Lúcidas

Quando o racional fica em silêncio e vive no conformismo, torna-se parte do problema e perde a total credibilidade da razão

Alterações que produz o álcool sobre as capacidades do condutor.

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            Segundo Masur (1984), seria uma enorme contradição esperar que alguém que tomou uma droga- que caracteristicamente diminui a autocrítica- mantenha a crítica a ponto de se considerar inapto para conduzir.

            O álcool, por ser um produto depressor (inibe o córtex cerebral), normalmente pode produzir no condutor um cansaço maior do que o habitual, provocando inclusive sonolência, aparecendo também a fadiga muscular e sensorial quando está dirigindo. Os primeiros processos mentais afetados são os que dependem da aprendizagem e da experiência prévia. Os graus mais finos de discriminação, a memória, a concentração e o critério ficam atenuados e logo se perdem. A confiança aumenta, a fala pode ficar eloqüente e quase brilhante. As mudanças de estado de ânimo são incontroladas e explosões emocionais freqüentes (Murdoch, 1979).

            Vários estudos confirmam os efeitos do álcool sobre a confiança em si mesmo e o prejuízo para a segurança. O álcool eleva o otimismo fazendo com que o indivíduo tente dirigir sem estar seguro de fazê-lo bem, aumentando a tolerância ao risco, levando-o a tomar decisões mais perigosas que o habitual. Os indivíduos crêem poder salvar as situações. A noção “subjetiva” de suas possibilidades, é o que muda pela ação do álcool, mais que uma influência efetiva sobre a capacidade objetiva do domínio do volante. O elemento subjetivo na condução se converte numa variável chave para explicar o complexo processo de decisão, prévio à escolha de qualquer manobra para evitar o acidente (Montoro, Tortosa e Soler, 1989).

           Os processos sensoriais são afetados pelo consumo de álcool, especialmente quando o nível de álcool oscila entre 0,3 – 0,8g/l (Carpenter, 1961 e 1963).

             Malka e cols. (1988) informam que é normal observar nos indivíduos alcoolizados perturbações nos tempos de reação visual ou auditiva, modificações nos testes de coordenação ou nas faculdades de atenção. Entretanto, não é evidente que possam ser estabelecidas correlações precisas entre a ingestão de álcool, a alcoolemia, o teste de álcool e os transtornos do comportamento. Nem sempre os comportamentos que seriam perigosos para uma pessoa junto ao volante de um automóvel correspondem a alcoolemias elevadas, porém, inversamente, também podemos dizer que às vezes as alcoolemias não penalizáveis provocam comportamentos que certamente seriam perigosos.

            A condução de um veículo é um processo que se apóia num adequado julgamento do tempo; assim, na manobra de ultrapassagem podemos considerar a decisão do condutor em função da percepção do tempo, da distância e da velocidade; é evidente que estes conceitos estão estreitamente relacionados e que a percepção da distância e do tempo influi na estimação da velocidade e vice-versa, assim demonstrou Cohen (1961) no “efeito visual Kappa”.

            Hills (1980) encontrou diferenças na estimação do tempo em função do sexo e a idade. Parece que os homens julgam o tempo mais curto do que as mulheres e que esta tendência se acentua com a idade. Fenández-Guardiola e cols. (1983) encontraram correlações positivas entre tempo de reação e estimação do tempo num mesmo indivíduo; isto mostra que, à medida que os indivíduos ficavam mais lentos o julgamento que faziam do tempo real se alargava.

             A atenção é um fator decisivo para a condução de veículos automotores, quer se trate de atenção “concentrada” (referida a um só objeto) quer seja atenção “difusa” (que se distribui simultaneamente em rapidíssima sucessão entre numerosos objetos) – (Mayoral, 1983, Rozes-traten, 1988). A menor falha da atenção “difusa” pode ter conseqüências imediatas graves. Já a atenção “concentrada” produz sonolência, levando em conta que olhar fixamente na mesma direção, como impõe a condução de um veículo, resulta contrário à percepção visual normal. Em conseqüência, a atenção na condução poderia ser qualificada de “concentrada- difusa”, devido a que se deve utilizar uma mescla das mesmas, com predomínio desta última, especialmente quanto mais elevada for a velocidade (Jordan, 1984).

             É preciso assinalar o papel da atenção nos tempos de reação. A atenção facilita a resposta, porém a dissipação e o relaxamento aumentam os tempos de reação e a variabilidade (Chocholle, 1972).

            Na realidade, mais que de tempo de reação, deveria se falar de tempos de reação, pelo fato de que na condução de veículos intervêm respostas de diversas modalidades que, obviamente, têm um tempo de reação específico para cada uma. Os tempos de reação (reflexa, simples e complexa) nos condutores abstêmios, variam consideravelmente de um indivíduo a outro, e a implicação das diferentes modalidades sensoriais-efetoriais no comportamento aludido, tem diferentes valores a respeito do controle final da ação de conduzir veículos. Por outra parte, a reação não é uma característica independente e se vê afetada por todos os elementos da personalidade, das condições físicas e mentais, dos movimentos, das habilidades e das atitudes; tudo isto cria algumas dificuldades concorrentes nas medidas dos tempos de reação (Polaino, 1985).

            As reações complexas são mais lentas que as simples; em média de 20 a 200 milésimo de segundo mais prolongados que os tempos de reações simples para estímulos habituais. O tempo requerido para uma reação complexa dependerá da complexidade do estímulo e da quantidade de respostas de que disponha o condutor para reacionar. À medida que a pessoa vai adquirindo maior perícia com a prática, adquire ao mesmo tempo alguns hábitos de reação ou respostas mais rápidas a situações que antes exigiam reações discriminativas mais lentas. O efeito do treinamento, que já é importante para os tempos de reação simples, é ainda mais importante para os tempos de reação complexa; assim, segundo diversos autores, para muitos indivíduos a diminuição dos tempos pode chegar a 10% depois do primeiro dia para os tempos de reação simples e chegar a 30% para os tempos de reação complexa; esta diminuição continua durante certo tempo seguindo as clássicas curvas da aprendizagem. Entretanto, o treinamento é diferente de um indivíduo a outro, e para alguns parece que não há aprendizagem (Chocholle, 1972).

            O consumo de álcool modifica de forma muito importante, às vezes vital, os tempos de reação. As experiências de Dettling mostram que num indivíduo jovem o tempo de reação é de 220 milésimos de segundo, e que passa a 332 se a alcoolemia é de 1,2g/l. Todos os autores estão de acordo em reconhecer que o álcool “aumenta” todos os tempos de reação e sua variabilidade; a ação do álcool aumenta com a dosagem ingerida (Chocholle, 1972). Parece certo que os tempos das reações complexas são mais afetados pelo álcool do que das destrezas mais simples. Neste dado coincidem todos os autores. Não se dispõe de uma explicação satisfatória, ainda que seja plausível esta que foi oferecida: que nas destrezas complexas intervêm mais conexões neuroniais que contudo estão qualitativamente diversificadas, pelo que o impacto nelas de uma substância tóxica como o álcool afetará os resultados terminais. Por outra parte, poderia apelar-se para outra explicação alternativa: nas destrezas complexas, a automatização das respostas está menos disponível que nas destrezas simples. Além disso, poderia apelar-se para outra variável explicativa que quase todos os autores deixam de fora de foco: nas tarefas complexas, junto aos elementos automatizados que nelas intervêm, geralmente também atua a tomada de decisões por parte do indivíduo, que supõe a intervenção da vontade, de reflexão e da escolha que tem que ser decidida entre várias opções, retardando assim a emissão da resposta (Polaino, 1985).

            No condutor alcoolizado pode aparecer uma importante falta de coordenação motora, transtornos de equilíbrio, diminuição notável da recuperação e do rendimento muscular de todo o organismo e diminuição do controle dos precisos movimentos que requer a direção de um veículo. Quando se dirige um veículo a coordenação entre os órgãos sensoriais e motrizes- olhos, mãos e pés, por exemplo- é fundamental. Quantidades médias de álcool no sangue são suficientes para alterar esta coordenação (Montoro et al., 1989).

            Valdecasas (1978) informou que uma dose de etanol, ao redor de 34cc, diminui de forma homogênea os reflexos mais simples, e mais ainda os complexos. Diminui também a exatidão dos movimentos habituais que chegaram a ser automáticos, aumentando em 40% a média de erros cometidos. Com respeito à coordenação e direção, os testes mostram um aumento do número de erros e uma diminuição da velocidade de execução (Soler e Tortosa, 1987).

            Muitos autores, já na década de setenta (Smart, 1969; Yoder e Morre, 1973; Selzer e cols., 1977), sugeriram que não é o álcool “per se” que cria nos condutores um alto risco, mas sim este em interação com outros processos, especialmente os de personalidade.

            No caso particular da Segurança Viária, está plenamente comprovado que o consumo abusivo de álcool provoca numerosas alterações orgânicas e psicológicas, algumas das quais podem ser altamente perigosas para a direção de um veículo automotor, existindo uma alta correlação entre consumo de álcool e acidente de trânsito (Goldberg, 1981).

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A perda da autocrítica é a alteração mais importante produzida pelo álcool. Sob a ação de bebidas alcoólicas, ainda que às vezes em doses insuficientes para prejudicar a parte motora, os condutores se sentem corajosos, ousam mais, pensam menos (ou nada) nos riscos e nas conseqüências dos seus atos, podendo desembocar num acidente com trágicas conseqüências. A ação desinibidora do álcool faz com que o condutor atravesse sinais de trânsito de forma perigosa, não se atenha aos cruzamentos, irrite-se facilmente ao ser ultrapassado e aumente a velocidade.

            O álcool traz importantes alterações visuais: – interferência na visão binocular que impede medir a distância e a velocidade corretamente; – problemas de acomodação ocular às mudanças de luz, cores e efeitos de deslumbramento, com o conseqüente risco na direção noturna; – dificuldades na concentração visual; – perturbação da visão periférica; – perturbação da capacidade de fusão; – modificação da acuidade visual; -padrões óculo-motores deficientes. Com 0,04 mg por centímetro cúbico se produz uma certa concentração das fixações oculares no centro do campo visual. Para uma taxa de 0,08 mg por centímetro cúbico o estreitamento do campo visual é significativo. Por outra parte, os estudos experimentais revelam que nestas condições os condutores deixam de realizar fixações sistemáticas nos veículos que passam, ao contrário do que sucede com os condutores que não ingeriram álcool; -alongamento dos tempos de reação. Estes dependem do estado do órgão efetor.

            Como causa dos efeitos do álcool, podem ocorrer confusões e modificações nas percepções sensoriais do condutor, aparecendo falsos reconhecimentos ou ilusões de diferentes tipos, com problemas de reconhecimento correto de sinais ou outros veículos. Fica alterada especialmente a percepção da distância e a velocidade com que se dirige e a dos demais condutores.

            Igualmente a outras modalidades sensoriais da percepção, a estimação do tempo é um processo aprendido que se utiliza como um elemento importante no controle do comportamento. O sentido do tempo depende, em boa parte, de um estado geral de atividade do sistema nervoso que inclui a divisão autônoma ou vegetativa. Este tempo subjetivo está intimamente ligado aos processos de atenção e memória, e igual a estes, pode estar distorcido pelo consumo de álcool, com conseqüências fatais na condução.

            O condutor, como um processador de informação no sistema de trânsito, busca e seleciona mensagens potencialmente úteis para a sua segurança, tanto no ambiente que o rodeia como no veículo e inclusive em si mesmo. Somente uma correta atenção permitiria um adequado processamento e uma ajustada tomada de decisões, que resultam em manobras apropriadas, para realizar a condução dentro dos limites aceitáveis de segurança. Dentro deste contexto, uma deficiente atenção significaria um “menor risco percebido” e, portanto, uma maior aceitação do mesmo.

            A atenção está estreitamente relacionada com nossa fisiologia, especialmente com os níveis de ativação do sistema nervoso. Por isto não é de se estranhar que a atenção fica alterada como conseqüência da ingestão de álcool, ou quando o condutor tem sono ou se encontra fatigado.

            O tempo de reação pode ser definido como o tempo que a pessoa demora, depois de perceber claramente a situação, para decidir o que deve fazer e como deve agir. Não é difícil imaginar o interesse da medida do tempo de reação no condutor, já que resulta evidente que tudo aquilo que aumenta o lapso de tempo requerido entre a percepção e a ação, isto é, tudo aquilo que aumente o tempo de reação é perigoso para a condução.

            A coordenação bimanual se refere à capacidade de integração dos membros num todo harmônico, trata-se de produzir um movimento que se origina dos impulsos correspondentes a cada uma das mãos. Ambas devem coordenar os movimentos de tal forma que obtenham a estrutura psicomotora correta. O condutor necessita ter uma boa coordenação de movimentos, isto é, movimentos voluntários praticamente automáticos ou pelo menos muito rápidos, favorecidos pelos tempos de reação muito curtos. Numa manobra se deve desembrear, girar, prevenir, retificar…, calcula-se que este conjunto de gestos exige três segundos. Nem todos os condutores retificam as manobras ao mesmo tempo e da mesma forma; daí a importância do controle da coordenação bimanual.

          Contrariamente aos que muitos pensam, também a síndrome de abstinência pode trazer grandes riscos para o condutor e conseqüentemente para a segurança viária, dependendo do grau em que se encontra o indivíduo.

            Do ponto de vista prático e clínico, podem-se distinguir três graus da síndrome de abstinência:

  • leve – presença apenas de sinais neurovegetativos (tremores e sudorese) e sintomas subjetivos (ansiedade);
  • moderado – além dos sinais anteriores, presença de sinais e sintomas digestivos (náuseas e vômitos);
  • grave – acréscimo aos sinais e sintomas anteriores, de evidências de comprometimento do sistema nervoso central (“delirium”, alucinações, convulsões, etc.).

             NOTA: Estas considerações finais são de minha autoria, Conselho Federal de Psicologia e psicólogos de universidades internacionais, retirados de artigos científicos.

REFERENCIAS

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