Mentes Lúcidas

Quando o racional fica em silêncio e vive no conformismo, torna-se parte do problema e perde a total credibilidade da razão

Declaração pirata, do capitão Bellamy

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        Bucaneiros do mundo, uni-vos!

          284909_402905126466729_1430066889_n  O Capitão Sam Bellamy foi um famoso pirata do século 18, comandante de um dos maiores navios da época: o Whydah. Durante os quase dois anos que singrou os mares do Caribe, capturou mais de 50 navios, muitos dos quais eram navios negreiros, levando escravos para a América. Inglês de Devonshire, nasceu em 1689. Tornou-se marinheiro na adolescência e tornou-se pirata aos 26 anos, depois de uma fracassada expedição ao Caribe para recuperar um tesouro de uma nau espanhola. Foi eleito comandante de uma frota pirata em 1716, depois que o badalado Barba Negra decidiu não atacar navios ingleses (talvez por isso, Barba Negra seja considerado o rei dos piratas. Pelos ingleses, claro…).  

            Bellamy estava retornando, nesse mesmo ano, para a costa leste americana, onde deixara sua amada, a quem pretendia presentear com parte dos tesouros conquistados. Mas pegou uma puta tempestade perto do Cabo Cod, em Massachussetts, nos Estados Unidos, e naufragou.    

            Bellamy era um cara legal. Pelo menos é a impressão que fica depois de ler o livro Uma História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Mais Notórios Piratas, atribuído a Daniel Defoe (há controvérsias sobre a autoria. O livro foi assinado por um tal Charles Johnson, mas muitos afirmam ser este um pseudônimo de Dafoe). Publicado em 1724, trata-se de um guia no estilo quem é quem da pirataria, com perfis dos maiores bucaneiros de todos os tempos. Nesse livro há um discurso do Bellamy que serviria como uma luva para os dias atuais, tempos em que certas palavras – como dignidade e independência – estão gastas, ocas, vazias. Bellamy discursava para um capitão de um navio mercante inglês, carregado com o que roubara do Novo Mundo. O tal capitão acabara de recusar um convite para se juntar aos piratas: (O trecho abaixo foi retirado do livro TAZ – Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey – Editora Conrad).

            Sinto muito que eles (Nota: eles são os piratas sob o comando de Bellamy) não vão deixar você ter sua chalupa (N.- um navio de menor porte) de volta, pois eu desaprovo fazer mesquinharia com qualquer um, quando não é para minha vantagem. Dane-se a chalupa, nós vamos naufragá-la e ela poderia ser de uso para você. Embora você seja um cachorrinho servil, e assim são todos aqueles que se submetem a ser governados por leis que os homens ricos fazem para sua própria segurança; pois os covardes não têm coragem nem para defender eles mesmos o que conseguiram por vilania; mas danem-se todos vocês: danem-se eles, um monte de patifes astutos e vocês, que os servem, um bando de corações de galinha cabeças ocas. Eles nos difamam, os canalhas, quando há apenas esta diferença: eles roubam os pobres sob a cobertura da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a proteção de nossa própria coragem. Não é melhor tornar-se então um de nós, em vez de rastejar atrás desses vilões por emprego?

            Quando o capitão replicou que sua consciência não o deixaria romper com as regras de Deus e dos homens, o pirata Bellamy continuou: 

            Você é um patife de consciência diabólica, eu sou um príncipe livre e tenho autoridade suficiente para levantar guerra contra o mundo todo, como quem tem uma centena de navios no mar e um exército de 100 mil homens no campo; e isto a minha consciência me diz: não há conversa com tais cães chorões, que deixam os superiores chutá-los pelo convés a seu bel-prazer.

            O livro de Dafoe é um dos poucos existentes sobre a história da pirataria. O que conhecemos hoje sobre esses aventureiros nos foi passado pelos donos da História, ou seja, pelos vencedores, pela lei, pela ordem. Um pirata é, para muitos, um sanguinário covarde, ladrão e sodomita, estuprador e desonrado. Imagem injusta e simplista forjada durante anos pelo catolicismo para manter seu poderio. E que hoje serve para comparações igualmente injustas e simplistas, que mostram desconhecimento do passado, credulidade excessiva na história oficial e incompreensão em relação ao presente.

            Há quem siga outras, menos crédulas, mas investigativas. Como a que Hakim Bey propõe. No capítulo Utopias Piratas do livro TAZ , Bey ajuda a clarear as coisas, revelando um lado, digamos, menos visível. Os piratas eram, em geral, renegados, escravos, ladrões de galinha, marinheiros e outros párias da sociedade que não estavam dispostos a morrer na miséria só porque os donos do poder assim o desejavam. As utopias piratas do Mediterrâneo, em especial as do século 17 no norte da África e, algumas décadas depois, já no século 18, no Caribe, eram uma ‘segunda chance’ para os descartados do cristianismo e da Igreja.

            Uma boa análise dessa segunda linha histórica revela um império corsário organizado e alternativo ao modelo mercantilista-cristão, sedutor e libertador espiritualmente, aventureiro e violento. Recompensador. A morte era conseqüência da vida. Que seja breve e intensa.

            O texto é do jornalista Rodrigo Morais, mestre em Comunicação e Cultura na Escola de Comunicação da UFRJ.

        Ho, Ho, Ho, quero uma garrafa de rum!

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