Mentes Lúcidas

Quando o racional fica em silêncio e vive no conformismo, torna-se parte do problema e perde a total credibilidade da razão

Geração de sua própria energia para consumo próprio

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energia-limpa 03Seguindo os altos preços de energia no mercado de curto prazo, a baixa nos reservatórios das hidrelétricas e a vontade da imprensa, a possibilidade de racionamento de energia, ou ‘apagão’ voltou a rondar as manchetes. Mas, apagão por apagão, prefiro o de FHC ao de Dilma, pois o primeiro foi motivado por uma postura claramente ideológica de Estado Mínimo, que abdicou do planejamento setorial e deixou a decisão de investimentos em novas usinas de geração para as empresas.

No início dos anos 2000, o apagão da equipe de FHC tinha um nome: a falta de capacidade de geração para atender à demanda. O hiato entre a geração e o consumo eram claros 20%.

No final de 2012, entrou em vigor uma norma da Aneel (482) que permite a qualquer cidadão gerar sua energia e vender o excedente à rede. Também, no ano passado, começou a vigorar o Plano Nacional de Eficiência Energética, sumariamente esquecido e ignorado no debate públicoenergia-eolica e, finalmente, entraram em funcionamento mais de 1.000MW das novas usinas eólicas, das quais 60% não puderam entregar energia por falta de conexão com a rede de transmissão.

Estes acontecimentos remeteriam a um futuro energético mais sustentável, menos poluente e alinhado com a nova economia.

No primeiro caso, a medida atraiu interesse de vários fabricantes de painéis solares e pequenos geradores eólicos estrangeiros que já instalaram representações no Brasil. Eles foram atraídos pelos descontos nas tarifas de conexão com a rede – distribuição e transmissão –, pelo volume imenso do mercado de 200 milhões de brasileiros e uma insolação ímpar comparada à Europa. É uma matemática simples.

Além das empresas entrando no mercado, revendedores de importados estão ganhando espaço e pelo menos uma estuda montar uma fábrica de painéis solares.
No entanto, a falta de visão do governo e a incompetência de planejar para fontes distribuídas é escancarada. Dou exemplo: o diretor da empresa estrangeira que quer montar a fábrica já falou com bancos oficiais, com governos e com bancos comerciais, mas ainda não tem uma luz.

Energia-SolarO Plano Nacional de Eficiência Energética está sendo feito às escuras. As linhas principais foram traçadas em reuniões de um grupo de trabalho que iria modificar o financiamento do BNDES para as consultorias na área, as Escos, além de identificar e implementar ações chave. O potencial de economia da eficiência energética é enorme e vai muito além da troca de geladeiras oferecidas pelas distribuidores para cumprir investimento obrigatórios na área.

Eficiência energética muda o jeito que fazemos uso da energia, principalmente no setor produtivo. Muitas cabeças pensantes já perceberam isso, mas ainda falta uma discussão mais técnica e aprofundada que esta está ausente da pauta do ‘apagão’, debate que deveria incluir a implementação das redes inteligentes – smart grid – cujos estudos e planejamentos estão também parados em algum porão do Ministério de Minas e Energia.

Finalmente, as eólicas de grande porte. A fome de investimento neste setor é enorme tanto que em poucos anos saímos de quase zero para 2% da capacidade instalada. São 2.4GW dos parques instalados e prontos para operar. Mas, e aí vem o xis da questão, cerca de 600MW estão parados por falta conexão à rede.
Este ano, mais 1,6GW de novos parques eólicos devem entrar em operação, e até 2016, mais uns 4GW. De novo, dos que entram em operação este ano, mais 600MW devem ficar parados por falta de conexão.

Foram muitos acertos na área de geração desde a reforma do sistema em 2004, que elevou a capacidade instalada nacional de 75GW para 129GW, com uma diversidade de fontes necessárias para um país como o Brasil.

Mas, o Calcanhar de Aquiles está na transmissão. A rede está defasada, ela cresceu bem menos que a geração e a demanda de consumo. Falta manutenção, gestão e redundância do sistema, sem falar na crônica falta de mão de obra qualificada, que afeta todas as áreas no Brasil, principalmente no delapidado setor público depois da experiência neoliberal.

Um dos erros da administração de energia é que ela foi montada nos preceitos do século passado. Ou seja, com grande usinas geradoras distantes do polos de consumo com investimentos imensos.

O Brasil ainda não fez – e resiste em fazer – a transição para uma economia energética de redes para incluir micro e mini geração.

E nem para a geração de renováveis de grande porte, como demonstra os gargalos no setor eólico. O presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, ao comentar estes problemas, vem dizendo que, no caso da transmissão para as eólicas, não dá para licitar linhas para áreas onde não existem ainda usinas. Para ele, um linhão só pode ser traçado depois de acertado onde vão estar os parques. Daí descasamento entre a operação de um parque eólico que leva 18 meses para construir e um linhão que enfrenta graves problemas de traçado, imobiliários e de licenciamento.

Do lado da geração distribuída, a posição do mesmo Tolmasquim e do MME é que não dá para incluir-la no planejamento, jogando-a à mercê das distribuidoras (que em tese são contra a ideia por um medo atávico de perder receita) e deixando os fornecedores órfãos de uma orientação de política pública, corriqueira nos países desenvolvidos que, como na Alemanha, apesar da incidência solar sendo mais baixa que no Brasil, é líder em geração fotovoltaica. Tolmasquim fala em ‘revolução silenciosa’, que na boca de um planejador, soa como omissão.

Venho escrevendo isso há anos (aqui e aqui), mas já está mais do que na hora do governo abandonar os velhos hábitos de relacionamento com a sociedade por meio de grandes empreiteiras. É um desafio. Mas o país tem os recursos humanos e naturais para desenvolver tecnologia própria em todas as áreas renováveis e de redes inteligentes.

O Lula foi eleito em 2002 para recolocar o Estado como planejador e indutor da economia e da sociedade. Em parte, este papel foi cumprido. Não foi fácil, pois além de enfrentar o forte desmonte do Estado, há, como vemos na histeria anual sobre o ‘apagão’ da Dilma, interesses de todos os lados – econômicos e ideológicos – de que isso não se realize.

O governo precisa planejar com os olhos para frente, com novas ferramentas que incluam a geração e inteligência reticular, tirar a mão do bolso das empreiteiras e começar a fomentar as famílias, os pequenos empresários e empreendedores neste setor.

Dar 20% de redução na conta é irrisório comparado com os ganhos a longo prazo que a instalação de um painel solar ou gerador eólico em cada lar poderia propiciar.

Spatuzza A. EDITORIAL – A histeria do apagão e a resistência à microgeração, 10 jan. 2013. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/a-histeria-do-apagao-e-a-resistencia-a-microgeracao/>. Acesso em: 11 jan. 2013.

“Hoje a tecnologia está evoluindo para redes inteligentes, que possibilitam a geração e o armazenamento de energia em pequenas quantidades em pontos próximos aos centros de consumo para uso local, mas que permitem ao pequeno gerador distribuir – e vender – o excesso na rede”, disse. “ (Cyro Boccuzzi). As redes inteligentes enxergam as perturbações nas redes antes que aconteçam, porém ainda é uma tecnologia cara.

Uma rede dessas combina inteligência de comunicação e integração de equipamentos que permitem fluxo bidirecional de informação e eletricidade.

Se estivesse no lugar do atual, este sistema permitiria um gerenciamento mais detalhado da rede pelo Operador Nacional dos Sistema. E assim seria possível montar um sistema de microgeração distribuída.

O que é isto? É um modelo que permite que cada casa, edifício, fazenda ou fábrica possa gerar sua eletricidade para consumo próprio, de forma renovável e sem ter que comprar de uma concessionária de energia. Quando não consumisse toda a eletricidade gerada, o pequeno gerador poderia ‘vender’ o excesso para a rede.

Já temos algo que funciona assim no Estado de São Paulo. Há usinas sucroalcooleiras com sistemas de cogeração, no qual o vapor do processo industrial e o bagaço de cana são usados para gerar eletricidade para a própria usina. Essa energia muitas vezes sobra, permitindo à usina vendê-la no mercado.

Mas como fazer isso em escala pelo país afora?

Para Bocuzzi, existem resistências muito grandes para implantar este sistema, que já funciona na Europa e começa a se tornar realidade nos Estados Unidos e na China.

“Se as distribuidoras incentivarem que eu coloque meu próprio gerador no meu telhado não será um bom negócio para ela, ela está perdendo duas vezes, gastando dinheiro para me ajudar a fazer isso e perdendo receita”, disse o consultor. “Então a lógica de definição das tarifas também tem que ser adaptada, tem que ter um novo modelo econômico e regulatório por trás”.

Apesar da pouca receptividade, resistir às novidades em vez de aprender a se adaptar a elas já provou não ser bom negócio em outros setores da economia, como a indústria da comunicação ou do entretenimento, que vivem essa mudança de paradigma de forma irreversível e desafiadora.

R. Apagão: chegou a hora das alternativas mais sustentáveis, 12 nov. 2009. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/apagao-chegou-a-hora-das-alternativas-mais-sustentaveis/>. Acesso em: 11 jan. 2013.

Considerações Finais

As autoridades, banqueiros e mega empresários – o sistema – temem perder o controle do monopólio natural das redes elétricas antigas nas quais a centralização da geração é essencial, e que, no fundo, resultará a diminuição do poderio econômico sobre os consumidores e, portanto, na minoração de receita financeira e lucros para os acionistas.

Não podemos deixar que a a raposa tome conta do galinheiro. As partes interessadas na microgeração precisam também fazer seus estudos e confrontar a visão não reticular das distribuidoras que calculam retorno em trimestres. Temos, portanto, uma tarefa política de extrema importância a fazer para que, quando o prazo chegar, possamos garantir a nós mesmos o poder de transformar sustentável e reticularmente o setor energético. É nosso dever não só acompanhar este debate, mas fazer o debate.

Enquanto isso, temos sempre estas discussões aprofundadas para o quê?

O povo gastar energia elétrica de geração poluidora para assistir o BBB entre outros, mas não tão poluidora quanto as mentes doentias dos telespectadores.

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