Mentes Lúcidas

Quando o racional fica em silêncio e vive no conformismo, torna-se parte do problema e perde a total credibilidade da razão

O veneno em nossos alimentos de cada dia

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ImagemA maioria das pessoas não sabe que os inseticidas disponíveis nos supermercados e usados inocentemente por donas de casa em geral são fabricados a partir dos mesmos princípios ativos dos agrotóxicos. Trata-se, na verdade, de carbamatos, piretroides e organofosforados, que provocam os mesmos efeitos negativos sobre a saúde que os agrotóxicos usados no campo. E, no caso dos inseticidas domésticos, chamados no jargão técnico de “domissanitários”, o problema se agrava em função do contato, dentro de casa, com crianças, idosos, gestantes, alérgicos e pessoas com outras doenças. Os produtos domissanitários não dependem da aprovação dos órgãos de agricultura e meio ambiente. Sua aprovação e registro dependem apenas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) / Ministério da Saúde. Por este motivo eles escapam de ser classificados e fiscalizados como agrotóxicos. Além disso, como no Brasil temos graves problemas de saneamento ambiental e, consequentemente, existem muitas pragas urbanas (baratas, mosquitos, ratos etc.).

gráfico agrotóxico quadradoAo invés de promover o saneamento ambiental e investir mais em ações educativas e fiscalizatórias no sentido de eliminar os focos de vetores, opta-se pelo uso de venenos. Mas, assim como acontece na agricultura9, os insetos, moluscos e outros parasitas rapidamente desenvolvem resistência aos produtos aplicados. Com isso, eles vão perdendo eficácia e levando os órgãos de saúde a aumentar as doses aplicadas ou mudar os princípios ativos usados. Mas as pragas também desenvolvem resistência aos novos venenos… É um círculo vicioso do qual nunca nos libertamos. Além disso, estes produtos acabam matando outros animais, que são predadores naturais destes vetores de doenças, e provocando desequilíbrios ambientais.

Porém, ainda mais grave que isso, é o fato de que os venenos aplicados dentro de nossas residências fragilizam nossos sistemas imunológico,agrotoxico nervoso e endócrino, deixando-nos mais vulneráveis às infecções e alergias. Estamos expondo massivamente crianças, gestantes, pessoas idosas, imunodeprimidos, pessoas que estão com outras doenças e, com isso, fragilizando a imunidade que essas mesmas pessoas precisam para reagir às infecções.

Não é por outro motivo que estas doenças estão se tornando cada vez mais graves. Há alguns anos, por exemplo, havia muito menos casos de complicações provocadas pela dengue. Com todo o controle químico realizado, a letalidade desta doença tem crescido cada vez mais, mostrando a ineficácia do modelo oficial.

Algumas substâncias podem afetar o sistema nervoso central, provocando transtornos psiquiátricos como ansiedade, irritabilidade, insônia ou sono conturbado (com excesso de sonhos e/ou pesadelos), depressão e, muitas vezes, levar a pessoa intoxicada ao ato extremo de eliminar a própria vida – comumente, bebendo o veneno usado na lavoura e também podem triplicar casos de câncer e quadruplicar nascimentos de bebês com malformações.

limoeiro_problemas_agrotoxicosUma pesquisa realizada pela Funep (Fundação de Apoio a Pesquisa, Ensino e Extensão) e pelo Daerp (Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto), em parceria com a Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto – SP), identificou a presença dos herbicidas diuron e hexazinona, utilizados na cultura da cana-de-açúcar, em várias amostras da água do rio Pardo, considerado uma potencial fonte de água potável para quando a capacidade de extração de água de poços artesianos de Ribeirão Preto ficar comprometida pela alta demanda e pelo rebaixamento do nível do aquífero Guarani. Segundo a pesquisa, as substâncias não foram eliminadas em um simulador de estação de tratamento de esgoto.

O estudo apontou ainda que as águas do Aquífero Guarani também estão sendo contaminadas: duas amostras de água de um poço artesiano na zona leste da cidade apresentaram traços de diuron e hexazinona.

Ainda outras pesquisar veem demonstrando que comprovam contaminação de ar, água da chuva e leite materno.

A última novidade da indústria para “solucionar os problemas da agricultura” foi o desenvolvimento das famigeradas sementes transgênicas. Esta tecnologia segue a mesma lógica da agricultura convencional, ora fabricando plantas inseticidas, ora plantas de uso associado a herbicidas e, desde que foi introduzida há pouco mais de uma década, só fez aumentar o consumo de agroquímicos. Aliás, como não poderia deixar de ser, pois não seria a indústria de venenos quem desenvolveria uma tecnologia agrícola capaz de encolher o seu principal mercado.

Com tudo isso, a agricultura química vem, ao longo das últimas décadas, apresentando resultados cada vez piores na relação produtividade xAgrotóxicos1 custos de produção e deixando os agricultores a cada dia mais estrangulados. Com margens de lucro cada vez mais achatadas, somente a produção em escala é capaz de proporcionar ganhos satisfatórios – um outro elemento a contribuir para a concentração de terra e renda no país, marginalizando e expulsando os agricultores familiares reféns do modelo convencional. Com tudo isso, a agricultura química vem, ao longo das últimas décadas, apresentando resultados cada vez piores na relação produtividade x custos de produção e deixando os agricultores a cada dia mais estrangulados. Com margens de lucro cada vez mais achatadas, somente a produção em escala é capaz de proporcionar ganhos satisfatórios – um outro elemento a contribuir para a concentração de terra e renda no país, marginalizando e expulsando os agricultores familiares reféns do modelo convencional.

Os sistemas agroecológicos, ao contrário, são adaptados à realidade da agricultura familiar e reforçam a proposta de um outro modelo de desenvolvimento para o campo, que prevê a repartição das terras e a produção descentralizada, que possa empregar muita mão de obra, dinamizar economias e abastecer mercados locais com alimentos saudáveis.

Precisamos de indústrias farmacêuticas e agroecológicas, desenvolvimento da permacultura, agricultura sustentável e interação de todas as áreas com botânicos, engenheiros agrônomos, florestais e ambientais e não de incompetentes no poder com seus cargos de confiança e comissionados, e o seu povo alienado que aceita as indústrias de assassinos.

agrotoxicos-alimentosA agroecologia, muito mais recente, não é a negação das técnicas na agricultura, mas sim o desenvolvimento de novas, associadas a antigas práticas que se revelaram produtivas e de baixo impacto. Segundo o relatório “Agroecology and the Right to Food”, apresentado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, a adoção massiva da agroecologia poderia duplicar a produção de alimentos no mundo, especialmente em áreas devastadas ou consideradas impróprias para a plantação, devido às diversas técnicas de restauração existentes nos sistemas agroecológicos. O relatório também apontou que a produção agroecológica de alimentos fornece melhor nutrição que a do agronegócio, baseada quase que inteiramente em cereais; além de ser mais resistente a mudanças climáticas e menos dependente de combustíveis fósseis.

Cultivo de hortaliças e plantas medicinais atravás da agroecologia em aldeia indígena no MT

Cultivo de hortaliças e plantas medicinais atravás da agroecologia em aldeia indígena no MT

E se quisermos lutar sozinhos contra o sistema, é isso o que acontece: Clique aqui.

Assista a sete programas que tratam dos efeitos dos agrotóxicos na saúde humana (tanto dos trabalhadores rurais como dos consumidores de alimentos), no meio ambiente e na agricultura. Clique aqui.

REFERENCIAS

Silva, J.M. et al. Agrotóxico e trabalho: uma combinação perigosa para a saúde do trabalhador rural. In Ciência & Saúde Coletiva, 10(4):891-903, 2005.

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Pelaez, V.; Terra, F.H.B; Silva, L.R.. A regulamentação dos agrotóxicos no Brasil: entre o poder de mercado e a defesa da saúde e do meio ambiente. Artigo apresentado no XIV Encontro Nacional de Economia Política / Sociedade Brasileira de Economia Política – São Paulo/SP, de 09/06/2009 a 12/06/2009. 22 p. Disponível em: http://www.sep.org.br/artigo/1521_b91605d431331313c8d7e1098bb1dd34.pdf

Pelaez, V.. Monitoramento do Mercado de Agrotóxicos – Observatório da indústria de agrotóxicos. Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária e UFPR – Universidade Federal do Paraná, apresentado em Brasília em março de 2010. Disponível em: http://www.memorialapodi.com.br/biblioteca/agrotoxicos-nacional/docs/Apresentacao%20,%20Monitoramento%20do%20Mercado%20de%20Agrotoxicos%20,%20Victor%20Pelaez%20,%2011.03.2010.pdf

Girardi G.. A última colheita – Pesquisa aponta relação entre uso de agrotóxicos e alto número de suicídios. Revista Galileu (Editora Globo), Edição 187 – Fevereiro de 2007. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT351671-1719-1,00.html

FREITAS, C.M. (Coord). Exercício prático de avaliação e gerenciamento de riscos: O caso dos trabalhadores expostos ao benzeno – Brasil, Setembro de 2000. Disponível em: http://www.bvsde.paho.org/bvsast/p/fulltext/benzeno/benzeno.html

FAO. International Conference on Organic Agriculture and Food Security. Rome 3-6 may 2007. Report. Disponível em: ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/meeting/012/J9918E.pdf

Domingues, B.. Proteção para quem? Saúde se preocupa com os efeitos dos agrotóxicos no Brasil, o maior consumidor dessas substâncias no mundo. Revista RADIS – Comunicação em Saúde. Número 95, julho de 2010. Rio de Janeiro: Fiocruz, p. 11-15. Disponível em: http://www4.ensp.fiocruz.br/radis/95/pdf/radis_95.pdf

Chaim, A. Tecnologia de Aplicação de Agrotóxicos: Fatores que afetam a eficiência e o impacto ambiental. Disponível em: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/Chaim_AgrotoxicoAmbiente_000fgp2794702wyiv8020uvkp2st4aal.pdf

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Carneiro, F.; Soares, V.. Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo. Artigo publicado no Portal EcoDebate em 08/07/2010. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34124

Bochner, R.. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas – SINITOX e as intoxicações humanas por agrotóxicos no Brasil. In Ciência & Saúde Coletiva, 12(1):73-89, 2007.

Badgley, C. et al. Organic agriculture and the global food supply. In Renewable Agriculture and Food Systems: 22(2); 86-108, 2007

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2 pensamentos sobre “O veneno em nossos alimentos de cada dia

  1. O Brasil poderia estar liderando Rankings como (educação,segurança), mas não está sempre nos piores Rankings.

    • Acredito em uma sociedade alternativa, um sistema sem políticos. Mesmo os EUA, capitalista, na localidade de Bethel (não tenho certeza mas parece este o nome) – onde foi realizado o festival de Woodstock – próximo a Nova York, esta cidade rural distribui água para Nova York sem tratamento da água, apeanas filtração, isso porque a forma de organização e técnicas utilizadas para a proteção das nascentes é extremamente organizado, e não é por cooperativa, ONGS, poder público, não é nada disso, os próprios agricultores que possuem fazendas com nascentes, organizam-se para proteger as nascentes mas de uma forma lucrativa. Eles têm um sistema de capitalismo-anarquismo (analisando em formas de sistemas). É interessantíssimo a organização deles. Assim, Nova York paga pelo cuidado das águas, com técnicas que não utilizam produtos químicos para o tratamento da água, os fazendeiros lucram e ainda cuidam das nascentes, como consequencia aumentam a proteção ao meio ambiente e a vida social se mantem pacífica. É importante ressalvar que os EUA têm menos Legislações que o Brasil na área de Meio Ambiente. Não é porque somos um país novato que ”ainda temos muito que aprender”, a questão é se temos a capacidade de pensar, e esta é a engrenagem para fazer a locomotiva do desenvolvimento sem políticos ou com políticos… quem escolhe eles somos nós, ou até será que escolhemos mesmo? O sistema eleitoral é confiável? Sei que sem eles podemos viver muito bem! Basta a união entre a maioria, e como toda guerra tem suas vítimas, a vida é uma guerra todos os dias para a sobrevivencia.

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