Mentes Lúcidas

Quando o racional fica em silêncio e vive no conformismo, torna-se parte do problema e perde a total credibilidade da razão

As doenças causadas pela poluição consequentes das ilhas de calor urbana

Deixe um comentário

Podem-se identificar, sucintamente, como causas principais inter-relacionadas que contribuem para o aumento da poluição ambiental, os seguintes fatores: (a) o crescimento exponencial da população mundial e também do consumo de energia, (b) a intensificação do processo de industrialização e (c) o processo de urbanização desordenado. Por conseguinte, este contexto propicia a perda da qualidade de vida da população. (SEINFELD e PANDIS, 1998; LORA, 2000).

A fim de elucidar ainda mais a magnitude do problema, é válido citar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima, em termos mundiais, que mais de 1,4 bilhão de residentes das áreas urbanas respiram ar que excedem os padrões atuais de qualidade (WRI, [c. 1999]);

Em geral, os principais poluentes do ar que exercem influências nocivas ao homem são: dióxido de enxofre (SO2), ozônio (O3), materiais particulados (PMs), monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HCs), óxidos de nitrogênio (NOx), compostos orgânicos voláteis e outros mais tóxicos como mercúrio, chumbo, benzeno, níquel, acetaldeído, hidrocarbonetos policíclico aromáticos (HPAs), cromo hexavalente, amianto entre outros (SEINFELD e PANDIS, 1998; LORA, 2000).

Pertencente ao grupo de poluentes gasosos, o monóxido de carbono (CO) é um gás inodoro, incolor e insípido. Tal poluente é produzido tanto por processos naturais quanto por processos provocados pelo ser humano. Têm-se como exemplos de fontes de emissão naturais, as queimadas florestais espontâneas, as erupções vulcânicas e a decomposição de clorofila. Em relação às fontes de emissão de caráter antropogênico, são exemplos, a produção de energia por usinas termelétricas, as indústrias químicas, as de refino de petróleo e, principalmente, os veículos automotores (WHO, 1999; Böhm, [c.1996]).

Em relação à concentração do CO na atmosfera, pode-se constatar que há uma grande variação da mesma, tendo em vista que ela se reduz rapidamente na medida em que se distancia da fonte de emissão. Deste modo, enquanto que nos centros urbanos, as concentrações médias de CO durante oito horas são geralmente abaixo de 20 mg/m3 e os picos em uma hora abaixo de 60 mg/m3, nos ambientes não expostos as emissões antropogênicas intensas, a concentração varia entre 0.01 a 0.23 mg/m3. Nota-se, a fim de comparação, verificar na tabela 1 que os valores recomendados pela WHO (2006) para manutenção da qualidade do ar encontram-se abaixo das concentrações de CO frequentemente encontradas nas áreas urbanas.

Sem título

Tabela referente a WHO (2006) – adaptação

Ressalva-se ainda, que as concentrações, não só do CO, mas de todos os poluentes do ar, dependem necessariamente do grau e das condições de emissão, tal como, das condições meteorológicas que podem tanto contribuir para a dispersão (e.g. vento) como aumentar a concentração (e.g. inversão térmica) dos poluentes. Deste modo, as concentrações dos poluentes do ar variam em uma ampla faixa em cada ambiente ou local. Quanto ao efeito da exposição, este depende principalmente da concentração do poluente, assim como do tempo de exposição ao mesmo. No caso da atividade física, soma-se ainda o volume de ar inalado (WHO, 1999; CGA, [c.1999]; ARMSTRONG, 2000).

O problema central advém do fato de que a afinidade do monóxido de carbono com a hemoglobina é aproximadamente de 200 a 250 vezes maior que a do oxigênio. Deste modo, a presença de COHb no sangue afeta, não apenas a disponibilidade de O2 para as hemoglobinas cujas as funções principais são o transporte de oxigênio (O2), de dióxido de carbono (CO2) e de íons hidrogênio – como também altera a dissociação do O2 que se ligou à hemoglobina (Ganong, 1999).

Tabela adaptada de Horvath (1981) e Armstrong (2000)

Tabela adaptada de Horvath (1981) e Armstrong (2000)

Tabela adaptada de Sokal e Kralkowska (1985).

Tabela adaptada de Sokal e Kralkowska (1985).

As diretrizes da qualidade do ar da OMS baseiam-se em ampla evidência científica sobre a poluição do ar e suas consequências para a saúde. Embora esta base de informações tenha lacunas e incertezas, constitui uma base sólida para as orientações recomendadas. Merecem atenção especial, diversos achados que vieram à tona nos últimos anos. Primeiro, a evidência de ozônio (O3) e material particulado (MP) indicam que há riscos para a saúde com as concentrações observadas hoje em muitas cidades de países desenvolvidos (US Environmental Protection Agency, 1995).

Recentes estudos epidemiológicos indicam que o material particulado em suspensão na atmosfera está associado a riscos para a saúde pública, com o aumento da incidência de doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer. As partículas em suspensão, especialmente aquelas de menor tamanho, podem ser inaladas até os alvéolos das vias aéreas inferiores dos pulmões. (CHAN et al, 2001).

Além disso, a severidade da intoxicação pelo CO depende, sobretudo, do tempo de exposição e não somente do nível de COHb. Ou seja, a variação do tempo de exposição parece ser o fator preponderante no grau de intoxicação, o que pode ser explicado por uma maior intensidade da hipóxia nestas condições, mesmo que o COHb não esteja muito elevado. Assim, onde há maior duração da exposição sucedem-se uma maior produção de lactato e piruvato sanguíneo (SOKAL e KRALKOWSKA, 1985).

PM10 inaláveis: Material particulado de diâmetro inferior a 10 micrômetros e PM2,5: Material particulado de diâmetro inferior a 2,5 micrômetros. As partículas inaláveis podem ainda ser classificadas como partículas inaláveis finas – MP2,5 (<2,5 µm); partículas inaláveis grossas (2,5 a 10 µm). As partículas finas, devido ao seu tamanho diminuto, podem atingir os alvéolos pulmonares, já as grossas ficam retidas na parte superior do sistema respiratório (Gong H Jr et al., 2005, adaptado).

O ozônio é formado na atmosfera através de reações químicas na presença de luz solar e precursor poluentes, como óxidos de nitrogênio (NOx) e compostos orgânicos voláteis (VOCs). Ele reage com NO2 e depositando-se sobre o solo (US Environmental Protection Agency, 1995).

Considera-se que, quando as concentrações de oito horas superior a 240 ug/m3 é susceptível de ter efeitos significativos sobre a saúde. Esta conclusão baseia-se nos resultados de um grande número de estudos clínicos por inalação sob condições de campo. Presumivelmente adultos asmáticos e saudáveis ​​ocorre considerável redução da função pulmonar e da inflamação das vias aéreas, causando sintomas e alteram o desempenho. Há também outras preocupações de aumento da morbidade respiratória em crianças. De acordo com evidências, a exposição a concentrações de ozônio desta magnitude iria resultar num aumento do número de mortes que possam ser atribuídas a 5-9% em relação à estimativa do nível de exposição. (Hubbell BJ et al. 2005).

Estudos epidemiológicos mostraram que os sintomas da bronquite nas crianças asmáticas aumentam em associação com a concentração anual NO2, e que o menor aumento da função pulmonar em crianças está ligada a elevadas concentrações de NO2 (WHO, 2006).

Vários estudos experimentais de toxicologia humana de curto prazo foram relatados efeitos agudos após a exposição a concentrações superiores a 500 ug/m3 NO2 durante uma hora. Embora o menor nível de exposição a NO2 que tem mostrado um efeito direto sobre a função pulmonar em pacientes asmáticos é de 560 g/m3, os estudos sobre a resposta da função brônquica em asmáticos sugerem aumentos com níveis acima de 200 μ g/m3 (WHO, 2006).

Estudos controlados com pacientes asmáticos que faziam exercícios indicam que alguns deles experimentaram mudanças na função pulmonar e sintomas respiratórios após a exposição ao SO2 por períodos de apenas 10 minutos (Hedley AJ et al.; 2002).

Esta tabela é referente ao CONAMA:

Sem 1

Análise crítica

O meio ambiente urbano tem sua capacidade de suporte extrapolada a cada dia, consumindo mais do que o necessário e gerando mais resíduos (sólidos, líquidos e gasosos) do que o ambiente pode assimilar.

O processo de crescimento desordenado das áreas urbanas nas cidades com aglomerada urbanização tem provocado um fenômeno peculiar: as ilhas de calor. Este processo caracteriza-se pelo incremento da temperatura nos centros urbanos em relação às áreas de entorno. Isso pode ser explicado pelo fato de os materiais empregados na construção civil armazenarem calor e das áreas mais adensadas e menos arborizadas tenderem a apresentar temperaturas mais elevadas, mesmo durante a noite.

O modelo de desenvolvimento sustentável previsto pela Conferência de Estocolmo para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (1972) não teve sua essência captada. O caminho escolhido é maléfico para o meio ambiente, incluindo aí o próprio homem. E as consequências geradas refletem seus aspectos no bem estar humano.

Uma das consequências geradas pelo processo de ocupação e desenvolvimento nestas metrópoles é o fenômeno Ilha Urbana de Calor. Quantidades de ar quente se fazem presentes em maior concentração no centro das cidades que sofrem com esse desequilíbrio. E essa condição dificulta a evaporação, reduz o poder de dispersão dos poluentes atmosféricos gerados trazendo complicações para a vida do homem nessas metrópoles.

A periferização é um dos maiores problemas pois, diariamente chegam às cidades um grande contingente de população atrás de melhores condições e oportunidades de trabalho, entretanto, não encontra oportunidades ficando a beira da exclusão social urbana.

Sem título1111

Na atmosfera das zonas centrais da cidade, é muito maior a concentração de gases e materiais particulados, lançados pelos automóveis e pelas fábricas, responsáveis por um efeito estufa localizado, que colabora para aumentar a retenção de calor. Sem contar com os automóveis, que são uma grande fonte de produção de calor o qual, se soma ao calor irradiado pelos edifícios, acentuando o fenômeno da ilha de calor (Lombardo, 1985).

Os materiais usados na construção, como o asfalto e o concreto, servem de refletores para o calor produzido na cidade e para o calor solar. De dia, os edifícios funcionam como um labirinto de reflexão nas camadas mais altas de ar aquecido. À noite a poluição do ar impede a dispersão de calor (Lombardo, 1985).

A substituição por grande quantidade de casas e prédios, ruas e avenidas, pontes e viadutos e uma série de outras construções, que é maior quanto mais se aproxima do centro das grandes cidades, faz aumentar significativamente a irradiação de calor para a atmosfera em comparação com as zonas periféricas ou rurais, onde, em geral, é maior a cobertura vegetal. Nota-se que diferentes padrões de refletividade, ou de albedos, são altamente dependentes dos materiais empregados na construção civil. Percebe-se que, dependendo do albedo, mais radiação será absorvida e mais calor será emitido pela superfície.

As áreas centrais de uma cidade concentram a mais alta densidade de construções, bem como atividades de emissoras de poluentes. A massa de ar quente carregada de material particulado que se forma sobre essas áreas tende a subir até se resfriar. Quando isso ocorre, retorna a superfície, dando origem a intensos nevoeiros na periferia da mancha urbana, retornando à região central, formando um verdadeiro círculo vicioso de fuligem e poeira (Lombardo, 1985).

Parâmetros importantes para caracterização e determinação da intensidade da ilha de calor:

  • a redução da evaporação (pela ausência de vegetação e água disponível);
  • a radiação solar que não é usada na evaporação é carregada para o aquecimento das ruas, edifícios e do ar da cidade;
  • o aumento da rugosidade (pela presença de edifícios), aumentando a turbulência, que age para transferir calor para cima, ao mesmo tempo em que diminui o escoamento zonal;
  • quantidade de solo exposto, condição esta que eleva a temperatura de superfície;
  • topografia da cidade, onde montanhas e vales podem servir como barreiras para a dispersão do ar quente;
  • as propriedades térmicas dos edifícios e dos materiais de pavimentação absorvem energia durante o dia, e à noite emitem radiação de onda longa, o que ocasiona excesso de temperatura durante a noite, maior que durante o dia (Lombardo, 1985).

Leitura Complementar

A poluição do ar e o sistema respiratório

Poluição afeta a saúde

Nossos doentes pneumopatas e a poluição atmosférica

Cidade pós-moderna, gentrificação e a produção social do espaço fragmentado.

Vestindo a pele do cordeiro: requalificação versus gentrificação no Recife

A inflexão do conceito de gentrificação em conjuntos urbanos patrimoniais em cidades de pequeno porte

La contaminación atmosférica causa más de 2 millones de muertes al año en todo el mundo

 

Referências

ARMSTRONG, L.E. Performing in extreme environments. Champaign: Human Kinetics, 2000.

BÖHM, G.M. Como os principais poluentes provocam doenças. Disponível em: saudetotal.com /saude/doencpol/ doencpol.htm, [c.1996].

CGA (Comissão de Gestão do Ar). URL: http://.drarn-lvt.pt/cga/. [c.1999].

CHAN, L. et al. Spatial variation of mass concentration of roadside suspended particulate matter in metropolitan Hong Kong. Atmospheric Environment 35 (2001) 3167-3176.

CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 03, 1990.

Air quality criteria for ozone and related photochemical oxidants. Research Triangle Park, NC, US Environmental Protection Agency, 1995 (EPA Report No. EPA/600/P-93/004aF-cF.3v).

GANONG, W.F. Review of Medical Physiology. 19. ed. Stamford: Appleton & Lange, 1999.

Gong H Jr et al. Respiratory responses to exposures with fine particulates and nitrogen dioxide in the elderly with and without COPD. Inhalation Toxicology, 2005, 17:123–132.

Hedley AJ et al. (2002). Cardiorespiratory and all-cause mortality after restrictions on sulfur content of fuel in Hong Kong: an intervention study. Lancet, 360:1646–1652.

Hubbell BJ et al. Health-related benefits of attaining the 8-hr ozone standard. Environmental Health Perspectives, 2005, 113:73–82.

LOMBARDO, Magda Adelaide. Ilha de Calor nas Metrópoles. Ed. Hucitec, São Paulo, 1985.

LORA, E.S. Prevenção e controle da poluição nos setores energético, industrial e de transporte. Brasília: ANEEL, 2000.

SEINFELD, J.H., PANDIS, S.N. Atmospheric Chemistry and Physics: from air pollution to climate change. Toronto: Wiley-Interscience, 1998.

SOKAL, J.A., KRALKOWSKA, E. The relationship between exposure duration, carboxyhemoglobin, blood glucose, pyruvate and lactate and severity of intoxication in 39 cases of acute carbon monoxide poisoning in man. Archives Toxicology, v. 57, n. 3, p. 196-199, 1985.

WHO air quality guidelines, global update, 2005. Report on a Working Group meeting, Bonn, Germany, 18–20 October 2005. Copenhagen, WHO Regional Office for Europe, 2005 (http://www.euro.who.int/Document/E87950.pdf, accessed 30 September 2006).

WHO (World Health Organization). Guidelines for air quality. Geneva, 1999.

WRI (World Resources Institute) . Disponível em: wri.org, [c. 1999]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s